Medidas unilaterais ameaçam OMC, diz Aloysio

O ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, subiu o tom de preocupação com a chamada guerra comercial. Ele disse na manhã de ontem, ao participar de fórum com empresários dos países do Brics (grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que a Organização Mundial do Comércio (OMC) está "ameaçada" por medidas unilaterais. Ele também manifestou preocupação com o aumento da xenofobia.

"Ao mesmo tempo em que o protecionismo ganha enorme força especialmente a partir da política atual dos Estados Unidos, vemos também com muita preocupação o surgimento de nacionalismos que vêm acompanhado de um aumento da xenofobia", afirmou.

Ele destacou a importância de estabilidade de regras dos participantes da OMC para a prosperidade econômica e para a paz mundial. "É um tema sobre o qual os países do Brics devem manifestar liderança e unidade, protagonismo bastante eficiente e vocal para defesa do comércio sujeito a regras e do multilateralismo", completou.

Pouco depois, em entrevista ao Valor, Nunes explicou que considera a OMC ameaçada porque os Estados Unidos têm contestado o multilateralismo e bloqueado a pauta do organismo. "A OMC está ameaçada por causa da contestação dos Estados Unidos ao multilateralismo. É uma palavra tabu em qualquer documento, inclusive sobre outros temas. Quando se fala em multilateralismo, os norte-americanos ficam ouriçados".

O ministro reforçou que o Brasil defende de forma enfática o multilateralismo. "Isso para nós é essencial. Para nós, é importante a maior dosagem possível na afirmação disso", apontou. "Nós somos contra o unilateralismo". Ele acrescentou que os Estados Unidos têm, desde a gestão de Barack Obama, bloqueado o órgão de apelação da OMC, ao não nomear substitutos para os membros que vão saindo do mecanismo. "Não há reconstrução do quórum, é um bloqueio dos americanos", criticou.

Na parte da tarde, o presidente chinês, Xi Jinping, diretamente envolvido na disputa com os Estados Unidos, foi na mesma direção e defendeu que os países em desenvolvimento e do Brics rejeitem firmemente o unilateralismo.

O ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, que no fim do dia chegou a Joanesburgo com o presidente Michel Temer afirmou que o Brasil não deve avançar além do tom que já adotou na questão da guerra comercial entre China e Estados Unidos. "A relação tanto com os Estados Unidos como com a China é importante. São dois parceiros muito importantes", disse Padilha.

Para Aloysio Nunes, o presidente Donald Trump tem agido de forma alinhada com sua base de apoio. "Enquanto isso funcionar, creio que não haverá muitas mudanças [da parte dos Estados Unidos na guerra comercial]".

Ele avalia que a guerra comercial liderada pelos EUA se insere em um mundo que passa por mudanças. "A China emergindo como grande potência econômica é algo que ainda não foi totalmente digerido pelos Estados Unidos. A busca de maior protagonismo de países como Brasil, Índia e África do Sul também gera perturbações para o sistema que vinha funcionando com alguma rotina. Tem que passar por esse período de placas tectônicas se movimentando".

O ministro disse que, para os próximos 10 anos dos Brics, é preciso fortalecer a atuação do NDB (New Development Bank, o chamado Banco dos Brics), com mais eficiência na aprovação de projetos. Nunes lembrou que, nessa cúpula dos Brics, será assinado acordo para abertura de escritório do banco no Brasil.

Ele apontou ainda que o governo brasileiro tem buscado criar condições para estimular investimentos em "setores-chave", como petróleo e gás, retirar restrições a companhias estrangeiras e estabelecer regras equitativas para investidores nacionais e estrangeiros.

Fonte: Valor Econômico – 26/07/2018

 

Relacionadas