Ex-presidente da Fiat, Belini assume Cemig

A escolha de Cledorvino Belini, ex-presidente da Fiat na América Latina, para a presidência da Cemig, deve ser bem recebida pelos investidores. Ainda que o executivo não seja um nome do setor elétrico, como havia prometido o governador mineiro Romeu Zema (Novo), a experiência de 44 anos de Belini na montadora italiana não deixa sombra de dúvidas entre investidores e analistas ouvidos pelo Valor sobre sua capacidade de comandar e recuperar a estatal mineira de energia elétrica.

"Belini chegou em um momento de devolver suas conquistas pessoais para a sociedade, isso é muito bem visto", disse um gestor, sob condição de anonimato.

Para um analista, a reação no mercado será certamente positiva, uma vez que esse foi o primeiro passo de renovação dentro da companhia. Na sexta-feira, as ações preferenciais da companhia operavam em queda ao longo de todo o pregão, mas quando os rumores do anúncio de Belini começaram a circular elas mudaram de tendência e acabaram fechando em leve alta de 0,9%, a R$ 13,40.

Além de comandar a montadora entre 2004 e 2015, Belini já foi presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Desde junho de 2018, ocupa uma cadeira no conselho de administração da Odebrecht S.A., principal holding do conglomerado, além de ser conselheiro da JBS.

Inicialmente, o executivo havia sido convidado para a presidência do conselho de administração da Cemig, mas Zema acabou optando por indicá-lo para presidir a companhia, revelando a estratégia do governo de tentar levar para a concessionária de energia elétrica soluções que só a iniciativa privada conhece - o que converge com o cartão-postal do Novo.

Aos 70 anos de idade, faz menos de dois anos que Belini deixou a Fiat, onde trabalhou por 44 anos, praticamente toda sua vida profissional. O jeito inquieto desse executivo paulistano, com formação em administração de empresas, parecia não combinar com a ideia de aposentaria quando ele deixou a montadora em junho de 2017.

Foi sob o comando de Belini, entre 2005 e 2011, que a marca italiana manteve a liderança do mercado brasileiro durante quase todos esses anos. Mas uma de suas principais marcas foi no cargo de diretor de compras, entre 1987 e 1993. Na função ele tinha um desafio a vencer. Quando os italianos decidiram erguer uma fábrica em Minas Gerais, em 1973, o ABC paulista era praticamente o único polo produtor de automóveis.

Mas o processo de produção na então vazia Betim (MG) não daria certo se os fornecedores não se instalassem no entorno da fábrica. Somente assim, a empresa teria sucesso no chamado "just in time", sistema usado por todo o setor, por meio do qual as peças chegam à linha no momento exato da montagem do carro.

Belini visitou fábricas de veículos do Japão e, com o conhecimento de produção enxuta, criou uma base de fornecedores próxima à fábrica. O executivo ganhou fama no setor pelo sucesso nesse processo, que ficou conhecido por "mineirização". A consagração da estratégia viria à tona, mais tarde, nas montadoras que se instalaram em outros pontos do país. O caso mais recente é o da Fiat Chrysler, que tem atraído fabricantes de componentes para o entorno da fábrica em Goiana, em Pernambuco.

Entre 1999 e 2004, Belini foi presidente da Magneti Marelli, empresa de autopeças que pertencia ao grupo Fiat. A partir de então, assumiu a presidência do grupo no Brasil e, no ano seguinte, da operação em toda a América Latina.

Naquela época ele viajava uma vez por mês até a sede da Fiat, em Turim, porque fazia parte de um grupo de 12 dirigentes, a maioria italianos, que se reuniam para decidir os rumos da companhia em todo o mundo.

Sempre risonho, com bom humor Belini também teve sempre faro aguçado na área comercial. E, como bom estrategista em assuntos de governo, foi um dos maiores defensores dos carros com motor 1.0. As vendas desse tipo de veículos se expandiram ao sabor dos incentivos tributários que Belini ajudara a negociar.

A postura de defesa dos interesses da empresa onde trabalhava eram visíveis até quando ele assumiu, em 2010, a presidência da associação que representa todo o setor, a Anfavea. Naquela época eram comuns as divergências entre montadoras. Mas Belini, mesmo de forma sutil, sempre se manteve do lado da Fiat.

Na Cemig, os desafios não serão poucos. Endividada, ela passa por momento de reestruturação, com foco em venda de ativos problemáticos, como as participações na Light, Renova e Santo Antonio Energia, além de cortar custos e buscar ganhar eficiência no segmento de distribuição de energia.

Belini assumirá o cargo no lugar de Bernardo Alvarenga, que era indicado do ex-governador Fernando Pimentel (PT-MG). Além da presidência, ele acumulará interinamente as posições de vice-presidente, diretor jurídico e diretor de gestão de pessoas, no lugar de, respectivamente, Luiz Humberto Fernandes, Neila Maria Barreto Leal e Maura Galuppo Botelho Martins.

Segundo comunicado da companhia, o conselho deliberou pela manutenção de Daniel Faria Costa, diretor de gestão de participações, e Dimas Costa, diretor comercial. Maurício Fernandes Leonardo Junior, diretor de finanças e relações com investidores, será mantido no cargo e vai acumular interinamente a diretoria de relações institucionais e comunicação (no lugar de Thiago de Azevedo Camargo).

Ronaldo Gomes de Abreu fica como diretor de distribuição e comercialização, acumulando interinamente as diretorias de gestão empresarial (no lugar de José de Araújo Lins Neto) e geração e transmissão (Franklin Moreira Gonçalves).

Valor Econômico – 11/02/19

 

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