EUA e UE acertam agenda de negociação comercial

O presidente americano, Donald Trump, e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, concordaram ontem em suspender a aplicação de novas tarifas enquanto abrem negociações para resolver suas diferenças comerciais. Para desarmar a crescente tensão comercial transatlântica e evitar assim uma guerra comercial, o lado europeu fez concessões ao governo Trump, se comprometendo a ampliar as importações de gás natural liquefeito (GNL) e soja dos EUA.

Em uma declaração conjunta no jardim da Casa Branca, os dois líderes disseram que concordaram em trabalhar juntos para eliminar todas as tarifas, barreiras comerciais e subsídios relacionados a bens industriais não-automotivos. Eles também disseram que vão trabalhar juntos para reformar a Organização Mundial do Comércio (OMC) e reduzir os custos comerciais e as barreiras regulatórias.

Embora não tenham mencionado o setor automotivo diretamente, Juncker disse que os dois lados concordaram em suspender a aplicação de novas tarifas enquanto as negociações estiverem em andamento. Trump tem ameaçado impor tarifas de até 25% sobre carros e autopeças importados, sendo a UE um de seus principais alvos.

Os EUA e a União Europeia (UE) vão "segurar as outras tarifas" enquanto as negociações prosseguem, além de reexaminar as tarifas impostas pelos EUA sobre as importações de aço e alumínio, e as tarifas retaliatórias implementadas pela UE "no seu devido tempo", disse Juncker. "Estou feliz por termos chegado a um acordo."

"Tivemos um grande dia, muito grande", disse Trump. "Estamos começando já as negociações, mas sabemos para onde elas estão indo". Ele elogiou "uma nova fase" nas relações comerciais.

Trump e Juncker não responderam as perguntas dos repórteres, num evento improvisado depois de cerca de três horas de conversa.

O anúncio aliviou as tensões alimentadas pela ameaça de Trump de impor tarifas sobre as importações de automóveis. As ações e os rendimentos dos bônus americanos subiram, com os investidores apostando que uma guerra comercial poderá ser evitada.

O senador Rob Portman, republicano por Ohio, aprovou a iniciativa para reduzir a tensão comercial. "Estou contente. Acho que isso ajudará a aliviar parte das preocupações, não só nas zonas rurais do país, mas também na economia em geral", disse Portman. "É um primeiro passo. Ainda precisamos definir os detalhes. Mas nas últimas semanas foi difícil ver alguma luz no fim do túnel", sem sinais de progresso com a UE, México, Canadá ou China, acrescentou.

A trégua poderá ser curta se os dois lados não conseguirem resolver suas diferenças sobre o comércio de veículos e autopeças. Em maio, Trump abandonou um acordo comercial com a China dias depois de ele ser anunciado, elevando as tarifas sobre bilhões em importações chinesas em seguida.

"Eles o venderam como algo muito positivo, mas para o mim o anúncio não é tão grande por ser uma espécie de semi-trégua", disse Marie Kasperek, diretora associada do programa global de negócios e economia do Atlantic Council. "Enquanto as tarifas sobre o aço e o alumínio estiverem valendo, a UE não vai negociar em alto nível."

O presidente da Câmara Alemã de Indústria e Comércio, Eric Schweitzer, também recebeu o acordo com cautela, alertando que ainda não é possível descartar completamente tarifas de automóveis dos EUA. Segundo ele, agora cabe a Washington reconstruir uma base de confiança com a Europa e remover as tarifas.

"As soluções propostas seguem na direção certa, mas uma parte significativa do ceticismo permanece", disse Schweitzer, em nota.

Mesmo assim, o acordo anunciado ontem com a UE é um sinal encorajador de que os parceiros comerciais dos EUA poderão conseguir aplacar o governo Trump com propostas para comprar mais produtos americanos, evitando uma guerra comercial.

Trump argumentava que o imposto de 10% sobre as exportações de carros para a UE é muito alto em comparação à taxa de 2,5% dos EUA, e também criticava a UE por seu superávit comercial de US$ 150 bilhões com os EUA.

A Alliance of Automobile Manufacturers, um grupo de grandes montadoras que inclui a General Motors e a Toyota, saudou o esforço por uma solução que venha a reduzir as barreiras comerciais, em vez de aumentá-las.

"O anúncio de hoje [ontem] demonstra que as negociações bilaterais são a maneiras mais eficiente de resolver as barreiras comerciais, não aumentando as tarifas", disse a aliança em comunicado.

O ministro da Economia alemão, Peter Altmaier, saudou o acordo pelo Twitter. "Parabéns ao @JunckerUE, @realDonaldTrump: Avanço alcançado que pode evitar a guerra comercial e salvar milhões de empregos! Ótimo para a economia global!".

Fonte: Valor Econômico – 26/07/2018

 

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