BNDES aprova linha de R$ 3 bi para estocagem de etanol

O BNDES aprovou nesta quinta-feira a criação de uma linha de financiamento de R$ 3 bilhões para garantir a estocagem de etanol nas usinas sucroalcooleiras que contará com apoio de outras instituições financeiras, conforme antecipou o Valor PRO. O banco de fomento disponibilizará até metade, R$ 1,5 bilhão, enquanto o restante da linha deverá ser disponibilizado pelos outros bancos.

O montante poderá garantir a estocagem de até 6 bilhões de litros de etanol, ou cerca de 20% da produção nacional. A expectativa no banco é que os recursos já estejam disponíveis ainda neste mês.

O segmento sucroalcooleiro é o terceiro setor da economia a receber do BNDES um pacote de ajuda setorial para mitigar os impactos da crise deflagrada pela pandemia. A crise resultante da redução do consumo e da desvalorização dos preços eclodiu justamente no início da nova safra de cana no Centro-Sul (2020/21), período em que se concentra a necessidade de caixa das empresas para fazer frente aos gastos operacionais. O volume de etanol que poderá ficar nos estoques devido ao financiamento corresponde ao que o setor pleiteava.

A ideia é que o recurso garanta capital de giro para as usinas neste momento, evitando que as empresas tenham que vender o etanol que está sendo produzido agora por valores muito baixos e justamente em um momento de demanda fraca, o que aumentaria a distorção no mercado.

A linha foi criada em conjunto com um sindicato de bancos, coordenados pelo Banco do Brasil, e as operações deverão ser contratadas em conjunto com o BNDES e outros bancos. O BNDES financiará até metade de cada operação e limitado a R$ 200 milhões para cada grupo econômico, que terá que ter um faturamento anual de no mínimo R$ 300 milhões para recorrer à linha. O limite mínimo de financiamento para cada projeto é de R$ 10 milhões.

O custo de cada operação será a TLP mais taxa de 1,5% mais um spread de risco — que dependerá da classificação de crédito da empresa beneficiária por parte do BNDES e do outro banco financiador. A taxa adicional à TLP pode cair para 1,1% caso a usina garantir a manutenção de ao menos 90% de seu quadro de funcionários por dois meses ou se, em caso de demissões, realizar acordos coletivos com o sindicato dos trabalhadores.

O prazo das operações será de 24 meses a partir da contratação, com carência de até 12 meses. A garantia dos financiamentos será o próprio estoque de etanol da usina, em volume equivalente a 150% da quantidade financiada.

A expectativa no governo é de que o financiamento de estocagem de etanol possa superar os R$ 3 bilhões aprovados, já que os bancos que já atuam junto ao setor podem oferecer mais crédito por conta própria, sem participação do BNDES. Porém, no mercado, avalia-se que justamente as empresas que mais precisam de apoio para evitar vender etanol por qualquer preço podem acabar tendo dificuldade de ter seu crédito aprovado junto às instituições financiadoras.

Embora muitos grupos sucroalcooleiros tenham a possibilidade de reduzir a produção de etanol migrando suas usinas para maximizar a fabricação de açúcar, há um limite para essa migração, e há algumas que nem tem essa opção por serem apenas destilarias. Mas muitas companhias já têm conseguido mitigar os impactos da crise elevando suas exportações de açúcar, favorecidas pela forte desvalorização cambial.

Ainda assim, contou a favor do setor para ser eleito como beneficiário de um pacote setorial o fato de ser um forte empregador no interior do país, gerando mais de 1 milhão de empregos diretos. Também pesou o fato da produção nacional do biocombustível reduzir a necessidade de importação de gasolina e evitar a emissão de até 90% de gás carbônico através da queima do combustível fóssil, fora sua capacidade de gerar energia regionalmente (através da queima de biomassa).

O apoio do BNDES foi o único que o governo concedeu ao setor, apesar dos pedidos de alterações tributárias para garantir competitividade ao etanol em relação ao gasolina. O segmento foi afetado por uma queda de cerca de 30% nos preços do etanol em relação ao período anterior à pandemia e, apenas em abril, com uma redução de 33,6% nas vendas de etanol hidratado no país ante o mesmo mês do ano passado, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

 

Fonte: Valor Econômico - 04-06 

 

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