Uma mudança estrutural nas finanças

Laurence D. Fink, presidente e CEO da BlackRock 

Extraído do site BlackRock Brasil, 15/01/2020

Estimado CEO,

Como gestora de ativos, a BlackRock investe em nome dos clientes, e eu estou escrevendo para você como consultor e responsável fiduciário desses clientes. O dinheiro que gerimos não é nosso. Pertence a pessoas em dezenas de países que buscam seus objetivos financieros de longo prazo, como a aposentadoria. Temos uma grande responsabilidade perante essas instituições e indivíduos – que são acionistas da sua empresa e milhares de outros –de fomentar a geração de valor no longo prazo.

As alterações climáticas tornaram-se um fator decisivo nas perspectivas das empresas a longo prazo. Em setembro do ano passado, quando milhões de pessoas saíram às ruas para exigir medidas contra mudanças climáticas, muitos enfatizaram o impacto significativo e duradouro que elas terão no crescimento econômico e na prosperidade – um risco que, até agora, os mercados têm sido lentos em refleti-los. Mas a consciência está mudando muito rapidamente, e acredito que estamos à beira de uma mudança estrutural nas finanças.

As evidências sobre o risco climático estão forçando os investidores a reavaliarem os pressupostos básicos sobre as finanças modernas. Pesquisando uma vasta gama de organizações – incluindo o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas da ONU, o BlackRock Investment Institute e muitos outros, juntamente com novos estudos da McKinsey sobre as consequências socioeconómicas do risco climático físico  – está aprofundando a nossa compreensão de como o risco climático irá impactar tanto o nosso mundo tangível como o sistema global que financia o crescimento econômico.

Por exemplo, nos Estados Unidos, será que as cidades serão capazes de suprir as necessidades de infra-estrutura à medida que o risco climático muda o mercado de títulos municipais? O que acontecerá com as hipotecas de 30 anos – um pilar fundamental das finanças – se os credores não puderem estimar o impacto do risco climático para um horizonte tão longo, e o que acontecerá com as áreas afetadas por enchentes ou incêndios se não houver um mercado de seguros viável para esses eventos? O que acontece com a inflação, e por sua vez às taxas de juros, se o valor dos alimentos aumenta devido à seca ou às inundações? Como podemos modelar o crescimento econômico se os mercados emergentes vêem sua produtividade cair como resultado das temperaturas extremamente altas e outros impactos climáticos?

Os investidores estão cada vez mais considerando estas questões e reconhecendo que o risco climático é um risco de investimento. Na verdade, as alterações climáticas são quase sempre uma das principais questões que os clientes em todo o mundo abordam com a BlackRock. Da Europa à Austrália, da América do Sul à China, da Flórida ao Oregon, os investidores estão perguntando como devem ajustar seus portfólios. Eles estão procurando entender tanto os riscos físicos associados às mudanças climáticas, como também as formas pelas quais as regulamentações climáticas terão impacto nos preços, custos e demanda em toda a economia.

Estas questões estão conduzindo uma reavaliação profunda do risco e do valor dos ativos. E como os mercados de capitais projetam riscos futuros, veremos mudanças na alocação de capital acontecerem mais rapidamente do que as mudanças no clima. Num futuro próximo –e mais cedo do que muitos prevêem –haverá uma realocação significativa de capital.

Risco climático é risco de investimento

Como fiduciários, nossa responsabilidade é de auxiliar os clientes a navegarem nesta transição. Nossa convicção de investimento é que os portfólios integrados com a sustentabilidade e clima podem proporcionar melhores retornos ajustados ao risco para os investidores. E, dado o crescente impacto da sustentabilidade no retorno dos investimentos, acreditamos que a base mais forte para os portfólios dos nossos clientes no futuro é o investimento sustentável.

Em carta enviada hoje aos nossos clientes, a BlackRock anunciou uma série de iniciativas para posicionar a sustentabilidade no coração da nossa estratégia de investimento. Estas incluem: fazer da sustentabilidade uma parte integrante da construção do portfólio e da gestão de risco; desinvestir daqueles com alto risco de sustentabilidade, como os produtores de carvão para termoelétricas; lançar novos produtos de investimento que filtrem os combustíveis fósseis; e fortalecer nosso compromisso com a sustentabilidade e a transparência em nossas atividades de gestão de investimentos.

Nos próximos anos, uma das questões mais importantes que enfrentaremos é a escala e o alcance da ação governamental sobre as mudanças climáticas, que definirá, a grosso modo, a velocidade com que nos moveremos para uma economia de baixa emissão de carbono. Este desafio não pode ser resolvido sem uma resposta internacional coordenada entre os governos, em conformidade com os objetivos do Acordo de Paris.

Sob qualquer cenário, a transição energética levará décadas. Apesar dos rápidos avanços, a tecnologia para substituir de forma rentável muitos dos usos essenciais dos hidrocarbonetos ainda não existe hoje. Devemos estar conscientes das realidades econômicas, científicas, sociais e políticas da transição energética. Os governos e o setor privado devem trabalhar juntos para fazer uma transição justa e equitativa – não podemos deixar partes da sociedade, ou países inteiros em mercados em desenvolvimento, para trás enquanto caminhamos em direção a um mundo de baixa emissão de carbono.

Embora o governo deva liderar esta transição, as empresas e os investidores também têm um papel a desempenhar. Como parte desta responsabilidade, a BlackRock é um dos membros fundadores do Força Tarefa Sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD). Somos signatários dos Princípios das Nações Unidas para o Investimento Responsável, e assinamos a declaração do Vaticano de 2019 que defende a regulamentação do preço do carbono, que acreditamos ser essencial para combater as alterações climáticas.

A BlackRock juntou-se à França, Alemanha e fundações globais para estabelecer a Parceria de Financiamento Climático, que é uma das muitas iniciativas público-privadas para melhorar os mecanismos de financiamento de investimentos em infraestrutura. Esta necessidade é particularmente urgente para as cidades, dado que as muitas obras de infraestrutura municipal – de estradas, esgotos e transporte – foram construídas para suportar condições climáticas que não convergem com a nova realidade climática. A curto prazo, parte do trabalho necessário para mitigar o risco climático poderia gerar maior atividade econômica. No entanto, enfrentamos o problema a longo prazo. Ainda não sabemos quais das previsões climáticas será a mais precisa, nem quais dos efeitos que deixamos de considerar. Mas não podemos negar a direção em que estamos nos movendo. Todos os governos, empresas e acionistas devem enfrentar as mudanças climáticas.

Maior transparência para os acionistas

Acreditamos que todos os investidores, juntamente com os reguladores, seguradoras e o público, precisam de uma imagem mais clara de como as empresas estão lidando com questões relacionadas com a sustentabilidade. Esses dados devem ir além das questões climáticas e se estenderem a questões sobre como cada empresa contribui, como a diversidade da sua força de trabalho, a sustentabilidade da sua cadeia de suprimentos ou como protege os dados dos seus clientes. As perspectivas de crescimento de cada empresa são indissociáveis da sua capacidade de operar de forma sustentável e servir todo o conjunto de partes interessadas.

A importância de servir as partes interessadas e integrar o propósito está se tornando cada vez mais fundamental para que as empresas entendam o seu papel na sociedade. Tal como escrevi em cartas anteriores, uma empresa não pode alcançar lucros a longo prazo sem ter um objetivo e sem considerar as necessidades de uma ampla gama de partes interessadas. Uma empresa farmacêutica que aumenta impiedosamente os preços, uma empresa de mineração que reduz a segurança, um banco que não respeita seus clientes – essas empresas podem maximizar os retornos a curto prazo. Mas, como temos visto repetidas vezes, essas ações que prejudicam a sociedade irão prejudicar a empresa e destruir o valor para os acionistas. Em contraste, um forte senso de propósito e um compromisso com as partes interessadas ajuda uma empresa a se conectar mais profundamente com seus clientes e a se ajustar às mudanças nas demandas da sociedade. Em última análise, o propósito é o motor da rentabilidade a longo prazo.

Com o passar do tempo, as empresas e países que não atenderem às partes interessadas e enfrentarem os riscos da sustentabilidade, encontrarão um crescente ceticismo por parte dos mercados e, por sua vez, um custo de capital mais elevado. Empresas e países que defendem a transparência e demonstram sua capacidade de resposta às partes interessadas, ao contrário, atrairão investimentos de forma mais eficaz, incluindo capital de maior qualidade e de longo prazo.

Já foram feitos importantes avances na melhoria da divulgação de informações – e muitas empresas já fazem um trabalho exemplar de integração e relato sobre sustentabilidade – mas precisamos conseguir uma adoção mais difundida e padronizada. Embora nenhuma estrutura seja perfeita, a BlackRock acredita que o Sustainability Accounting Standards Board (SASB) fornece um conjunto claro de padrões para relatar informações sobre sustentabilidade em uma ampla gama de questões, desde práticas trabalhistas até privacidade de dados e ética empresarial. Para avaliar e relatar os riscos relacionados ao clima, bem como as questões de governança relacionadas que são essenciais para gerenciá-los, o TCFD fornece uma estrutura valiosa.

Reconhecemos que a elaboração de relatórios com estes padrões requer tempo, análise e esforços significativos. A própria BlackRock ainda não está onde queremos estar, e estamos continuamente trabalhando para melhorar nossos próprios relatórios. Nossa divulgação alinhada ao SASB está disponível em nosso website, e estaremos lançando uma divulgação alinhada ao TCFD até o final de 2020.

A BlackRock está engajada com empresas há muitos anos em seu progresso em direção ao TCFD – e aos relatórios alinhados com o SASB. Este ano, estamos solicitando às empresas em que investimos em nome dos nossos clientes para que: (1) publiquem uma divulgação de acordo com as diretrizes específicas do setor da SASB até o final do ano, caso ainda não o tenham feito, ou divulguem um conjunto semelhante de dados de uma forma que seja relevante para o seu negócio específico; e (2) divulguem os riscos relacionados ao clima de acordo com as recomendações do TCFD, caso ainda não o tenham feito. Isto deve incluir seu plano para operar sob um cenário onde o objetivo do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a menos de dois graus seja totalmente realizado, conforme expresso pelas diretrizes do TCFD.

Utilizaremos essas divulgações e nossos compromissos para verificar se as empresas estão gerenciando e supervisionando adequadamente esses riscos dentro dos seus negócios e se planejando adequadamente para o futuro. Na ausência de divulgações sólidas, os investidores, incluindo a BlackRock, concluirão cada vez mais que as empresas não estão gerenciando adequadamente os riscos.

Acreditamos que, quando uma empresa não está efetivamente abordando uma questão material, seus diretores devem ser responsabilizados. No ano passado, a BlackRock votou contra ou reteve votos de 4.800 diretores em 2.700 empresas diferentes. Quando acharmos que as empresas e conselhos não estão produzindo divulgações de sustentabilidade eficazes ou implementando estruturas para gerenciar essas questões, vamos responsabilizar os membros do conselho. Dado o trabalho de base que já lançamos sobre a divulgação, e os crescentes riscos de investimento em torno da sustentabilidade, estaremos cada vez mais dispostos a votar contra a administração e os diretores quando as empresas não estiverem progredindo o suficiente nas divulgações relacionadas à sustentabilidade e nas práticas e planos de negócios subjacentes a elas.

Capitalismo responsável e transparente

Ao longo dos 40 anos da minha carreira em finanças, testemunhei uma série de crises e desafios financeiros – os picos da inflação dos anos 70 e início dos anos 80, a crise da moeda asiática em 1997, a bolha dot-com, e a crise financeira global. Mesmo quando esses episódios duraram muitos anos, todos eles foram, no amplo contexto das coisas, de curto prazo. As mudanças climáticas são diferentes. Mesmo que apenas uma fração dos impactos projetados seja realizada, esta é uma crise muito mais estrutural, de longo prazo. Empresas, investidores e governos devem se preparar para uma realocação significativa de capital.

Nas discussões que a BlackRock tem com clientes em todo o mundo, cada vez mais, eles estão procurando realocar seu capital em estratégias sustentáveis. Se dez por cento dos investidores globais o fazem – ou mesmo cinco por cento – testemunharemos mudanças maciças de capital. E essa dinâmica vai se acelerar à medida que a próxima geração assumir o comando do governo e das empresas. Os jovens têm estado na vanguarda do apelo às instituições – incluindo a BlackRock – para que enfrentem os novos desafios associados às mudanças climáticas. Eles estão pedindo mais das empresas e dos governos, tanto em transparência quanto em ações. E à medida que trilhões de dólares mudarem para os jovens nas próximas décadas, à medida que eles se tornam CEOs e CIOs, à medida que se tornam políticos e chefes de Estado, eles irão remodelar ainda mais a abordagem do mundo à sustentabilidade.

A medida que nos aproximamos de um período de realocação de capital significativo, as empresas têm a responsabilidade – e um imperativo econômico – de dar aos acionistas uma imagem clara do seu grau de preparação. E no futuro, uma maior transparência nas questões de sustentabilidade será um componente persistentemente importante da capacidade de cada empresa para atrair capital. Ela ajudará os investidores a avaliarem quais empresas estão servindo seus acionistas de forma eficaz, remodelando o fluxo de capital de acordo com isso. Mas o objetivo não pode ser a transparência em nome da transparência. Deve ser um meio para alcançar um capitalismo mais sustentável e inclusivo. As empresas devem ser deliberadas e empenhadas em abraçar o propósito e servir todas as partes interessadas – seus acionistas, clientes, funcionários e as comunidades onde operam. Ao fazer isso, sua empresa desfrutará de maior prosperidade a longo prazo, assim como os investidores, trabalhadores e a sociedade como um todo.

 

Atenciosamente,

Laurence D. Fink

Chairman e CEO

 

 

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