Seca preocupa e dá mais gás aos fundos

Por Arnaldo Luiz Corrêa, direto da Archer Consulting

Extraído do Archer Consulting, 18/09 

São assustadoras as cenas que circulam pelos grupos de WhatsApp dos incêndios de grandes proporções que atingiram os canaviais do Centro-Sul nas últimas semanas. Executivos de várias usinas acreditam que 2/3 das empresas do Centro-Sul terminarão a safra muito antes do estimado. A data que colocam é a primeira semana de novembro, no máximo. Segundo testemunhas oculares dos incêndios, “o fogo atingiu canaviais em fase de crescimento, intermediários e já prontos para a colheita”. As consequências desses incêndios que aniquilaram milhares de hectares de cana poderão ser um duro golpe na disponibilidade da gramínea para a próxima safra 2021/2022.

A combinação da seca, que segundo alguns agrônomos vai encolher a oferta de cana para o próximo ano em 5%, com o impacto dos incêndios que teria ceifado canaviais em crescimento, mais a redução na ATR podem-se traduzir em um enxugamento da disponibilidade de açúcar ao redor de 2.8 milhões de toneladas. Tudo isso ainda é prematuro, mas preocupa.

Não sei apontar se esses fatores influenciaram o mercado futuro de açúcar em NY, mas o fato é que a semana foi de recuperação dos preços. Muito embora acredito que as notícias positivas e negativas que bombardeiam o mercado não parecem ser suficientes para quebrar o restrito intervalo de preços em que o mercado parece estar condenado a ficar, o fato é que a semana se encerrou com o mercado futuro de NY apreciando 18.30 dólares por tonelada no vencimento mais curto (outubro/2020) e 16.50 dólares por tonelada no vencimento março/2021. Para os meses correspondentes à safra 2021/22 do Centro-Sul, isto é, maio-julho-outubro de 2021 e março de 2022, a valorização média foi de 10.50 dólares por tonelada que representaram um acréscimo de 75 reais por tonelada em relação à semana passada.

Os fundos reduziram 14,676 lotes de suas posições compradas vendendo no mercado, mas no período apurado a variação de preço em NY foi desprezível. O mercado pareceu absorver as vendas dos fundos com possível indicação que 12 centavos de dólar por libra-peso é um bom nível de compra. Apenas conjecturando. Agora os fundos estão posicionados no março e os indicadores técnicos apontam para a continuação da solidez do mercado, a ser alimentada pelas histórias de seca e redução de cana. A conferir.

Como dissemos aqui várias vezes, nossa preocupação acerca da evolução dos preços do açúcar em NY esbarra na retração da economia global e seu efeito no consumo de combustíveis e açúcar, em especial nos próximos anos. Nossa estimativa do crescimento do consumo mundial nas próximas cinco safras (de 21/22 até 25/6) é de apenas 0.7% ao ano, sem contar os efeitos do covid-19.

As exportações de açúcar do Brasil animam os altistas. Em agosto, o Brasil exportou 3.47 milhões de toneladas, 122% acima do volume exportado em agosto do ano passado. No acumulado do ano, ou seja, cobrindo o período de janeiro a agosto, o volume exportado soma 17.89 milhões de toneladas de açúcar contra 11 milhões de toneladas no ano passado no mesmo período. No acumulado de doze meses (setembro de 2019/agosto de 2020) as exportações atingem 24.9 milhões de toneladas, 31.5% acima do mesmo período anterior.

No acumulado da safra (abril a agosto) as exportações somam 13.59 milhões de toneladas de açúcar, o maior volume dos últimos onze anos. Com base nas últimas safras e o percentual que o período abril/agosto representou para o ano safra, as estimativas hoje seriam de mais de 31 milhões de toneladas de açúcar. A conferir.

 

 

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