O mal da abundância por mais um século?

Por Luís Eduardo Duque Estrada, professor adjunto da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro e recentemente publicou “Capital Petróleo: A saga da indústria entre guerras, crises e ciclos” pela Editora Garamond

Extraído do Valor Econômico, 07/07

Detentor de uma hidrografia invejável, da maior floresta tropical, de diversos regimes pluviométricos, condições únicas de vento e insolação, a natureza foi generosa com o Brasil. A partir de 2006, gigantescas jazidas de óleo e gás foram descobertas em águas ultraprofundas; eram raras em terra. Para contornar a carência, o pioneirismo no biocombustível: álcool para substituir gasolina, bagaço para eletricidade e biodiesel de óleo vegetal, ou gordura animal. Nessa trajetória, não faltaram ciência e planejamento.

Contudo, a pandemia encontrou o país empobrecido e estagnado: o PIB per capita em dólar será o menor do quinquênio, metade da população não tem água ou esgoto encanados e 20 milhões são favelados. Entre os ribeirinhos do Amazonas, nem um quinto dispõe de água tratada, ou qualquer esgotamento, a não ser o próprio rio. Faltam água, esgoto, moradia, transporte e saúde, mas, sobretudo, Estado.

Diante da tragédia, de pouco serve a natureza. As disparidades regionais e sociais se revelam absurdas, o que a falta de governo agrava. Invisível, a doença se identifica ao inimigo, ao perigo exterior. Ela pede aos países uma pronta resposta, mas americanos e chineses lutam por hegemonia, enquanto russos, turcos, árabes, persas e hindus buscam soberania. A pandemia acirra tensões e empurra o Brasil para o abismo.

O plano de saída deve mobilizar os recursos disponíveis e, óbvio, depende do Estado. As linhas de ação se referem à segurança alimentar, saneamento, energia, moradia, saúde, transporte, à reciclagem e ao despejo de resíduos, ao uso do solo e arranjos produtivos locais... As iniciativas se concentram em reduzir a desigualdade e proteger a natureza.

O manejo hídrico ilustra as inter-relações, a infraestrutura necessária, a visão sistêmica e o longo prazo. O colapso de antigas civilizações não nos faz esquecê-lo. O Brasil dispõe de 12% da água doce, tem dimensão continental e se estende de Norte a Sul, com diversos climas, solos e biomas. A agricultura e extração florestal, assim como a criação animal, contam a ocupação do território.

A mesma abundância explica uma matriz singular, de base hidráulica, extensa, integrada e entre as de menores emissões do mundo. Não por acaso, a produção rural (agricultura, pecuária, e silvicultura) e a eletricidade são as que mais usam água. A despeito das usinas devolverem ao rio o volume retirado, quem está a jusante merece consideração. Isso porque um terceiro setor se destaca: o abastecimento de água e o esgotamento. Aliás, tratando-se apenas de consumo (e não retirada), os maiores são: agricultura (70% do total), dessedentação (12%) e indústria (7%).

Esses setores são hidrointensivos. Para gerar um real, a agricultura gasta 92 litros, enquanto água e esgoto consomem 86 litros. Os volumes são 25 vezes maiores que a média industrial, embora alguns sejam altamente dependentes: alimentos e bebidas, coque, petróleo e biocombustíveis, somados, respondem por 60% do consumo industrial de acordo com a Agência Nacional das Águas.

Da mesma forma que as emissões atmosféricas, os danos aos corpos hídricos deixam rastro. Certos produtos, como açúcar e álcool, óleo de soja, ou de milho, biodiesel, petróleo e petroquímicos estão entre os de maior “pegada” hídrica. Por um lado, a localização das fábricas depende da água. Por outro, sem regulação, o uso intensivo se faz em detrimento dos demais e traz danos irreversíveis. O fato de ser renovável não justifica a desatenção na retirada, consumo e armazenamento; a propósito, as tragédias são incontáveis.

Nestas terras, os deuses foram misericordiosos: não existem terremotos, tsunamis, ou furações e as temperaturas negativas são incomuns. Por séculos, no sertão, a seca trouxe fome; pois, até lá, vento e sol, que não deixam a chuva cair, podem gerar energia e renda. Além disso, a intermitência das fontes e a disputa pela água podem ser equacionadas com o gás trazido do pré-sal, cuja “pegada” (de carbono e hídrica) é menor do que qualquer outro combustível fóssil.

Impossível não lembrar as doenças de vinculação hídrica. A relação somente foi comprovada a partir de 1876, quando Pasteur demonstrou que os microrganismos causavam infecções. O cólera e o tifo ceifaram milhões de vidas até a descarga sanitária ser escoada pelo esgoto. No Brasil, esquistossomose, malária e dengue são doenças cuja proliferação se relaciona à água represada e à larva de mosquito.

Cientistas, sanitaristas e engenheiros se preocuparam, primeiro, em escoar a descarga e os rejeitos, em seguida, com a cloração e filtragem; posteriormente, em tratar o esgoto coletado, para então chegarem aos mananciais, à gestão das bacias e, recentemente, à reciclagem e ao reúso.

Pelo visto, nem a ciência, a engenharia sanitária e o avanço em epidemiologia bastam. A agonia da saúde pública desembocou numa crise ímpar: encontrou o país desgovernado e à beira do abismo. Em dólar, a renda per capita caiu em um décimo depois de 2013 e outro tanto em 2020. Aliás, os últimos 20 anos foram tumultuados por três crises brutais e distintas: a queda das torres gêmeas em Nova York, o crash financeiro e a atual pandemia.

Quanto mais severa, mais lenta a retomada e diferente o mundo lá na frente. Se for vigorosa, se apoiará nas vantagens que restaram e passará pelo Estado renovado. Nas atividades citadas, a chave é a infraestrutura, a movimentação por redes dedicadas, exclusivas e caras; elas se sobrepõem, completam-se e geram sinergias. Contudo, não serão construídas sem ambiente estável, regras claras e ação do governo.

Isto exige planejamento, tempo e muito trabalho. Em troca, a inteligência na distribuição de eletricidade, gás, água e esgoto, as redes de internet 5G, ou ainda as redes de metrô, VLT, ônibus e trens elétricos, proporcionam ganhos incrementais aos usuários, enquanto o custo marginal tende a zero, sem contar os benefícios sociais.

O milênio repousaria na sociedade da informação, no comércio global e na revolução das redes sociais. Em termos econômicos, a década que termina decepcionou: não houve retomada. Em termos sociais, a concentração da renda e, em termos ambientais, as emissões e a poluição, continuam insolúveis. A pandemia acrescentou outro problema sem remédio. As crises são rupturas, a oportunidade de recomeçar, reconstruir novas bases.

Considerando a estagnação secular e o imobilismo ambiental, talvez seja a hora para acelerar a transição energética e construir uma sociedade mais justa. Não faltam recursos. Será que existe disposição?

 

Fonte: Valor Econômico – 07/07

 

 

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