Merkel deixa um legado ambiental controverso

Há uma extensão de terra perto da fronteira com a Polônia onde o triunfo e a tragédia da política ambiental da Alemanha podem ser vistos bem de perto.

Localizada no meio de uma floresta de pinheiros a leste de Cottbus, Lieberose é uma das maiores usinas de geração de energia solar do país. Construída há mais de uma década, com a ajuda de generosos subsídios "verdes", os 900 mil painéis fotovoltaicos da usina produzem energia limpa suficiente para suprir 20.000 residências. Brilhando silenciosamente sob o sol do inverno, a usina necessita apenas de 10 trabalhadores para operar.

Mas, além das copas das árvores, uma grossa nuvem branca paira permanentemente no céu. Sua fonte são as nove torres de resfriamento de Jänschawalde, uma usina de energia convencional que opera com linhito, um tipo de carvão com menor poder calórico e que é um dos combustíveis mais sujos que existem. Por algumas métricas, trata-se da usina que emite o quarto maior volume de dióxido de carbono na Europa. O próprio linhito é trazido de uma mina a céu aberto localizada a poucos quilômetros dali. A mina lembra uma grande cratera lunar sem vida, com exceção das imponentes escavadeiras e das esteiras transportadoras que operam bem abaixo.

Na região que circula Cottbus, mais de 8.000 trabalhadores dependem dos empregos gerados pelas minas de linhito e das usinas que usam o combustível.

Sol versus carvão, renovável versus convencional, clima e meio ambiente versus empregos e a economia - a Alemanha luta há anos para traçar um caminho entre esses polos. O país há muito se imaginou como pioneiro ecológico, ditando o ritmo em questões como energia nuclear, mudanças climáticas e energias renováveis.

Ainda assim, a economia alemã continua muito dependente da indústria automobilística e de fontes de energia como o linhito. O desafio na reconciliação das demandas industriais do país com suas ambições ambientais tem sido excepcionalmente difícil - e se tornou uma questão decisiva para a primeira-ministra Angela Merkel, no momento em que ela inicia a fase final de seu mandato.

No sábado, uma comissão do governo anunciou um plano que prevê a eliminação do carvão e do linhito na geração de energia na Alemanha até 2038. O longo período de transição reflete a grande importância do carvão para a economia nacional, mas também pretende dar às regiões afetadas, como Cottbus, tempo para que elas se preparem para a inevitável perda econômica.

Em seu cerne, porém, o plano de desativação visa ajudar a Alemanha a alcançar suas ambiciosas metas climáticas para 2030 e restabelecer suas credenciais ecológicas do país após anos de reveses. A questão que os líderes alemães enfrentam agora é: eles vão conseguir cumprir essa promessa?

"O que acontecer na Alemanha enviará um sinal. As pessoas estão dizendo: 'Se um país com a riqueza e a base industrial da Alemanha não é capaz de abandonar o carvão de uma maneira eficiente, então como nós poderemos fazer isso?'", afirma Ottmar Edenhofer, diretor do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre os Impactos Climáticos. "O mundo olha para nós. Temos dez anos para resolver o problema do carvão. O que está em risco é a credibilidade internacional da Alemanha."

Em 2000, a Alemanha se tornou a primeira grande economia a apostar nas energias eólica e solar, aprovando uma lei - depois bastante copiada - que oferecia um modelo de tarifas conhecido como "feed-in tariff", que consiste na garantia de pagamento de tarifas para as unidades geradoras de energia renovável. A iniciativa desencadeou um "boom" das energias eólica e solar que ganhou força sob Merkel. Quando ela assumiu o governo, em 2005, as energias renováveis respondiam por 10% da eletricidade gerada na Alemanha. Desde então, esse número disparou para 40%. Agora, o governo Merkel está armando o próximo passo, com uma meta oficial de ampliar as energias renováveis para 65% do mix energético até 2030.

A economia alemã continua muito dependente do linhito, um dos combustíveis mais sujos que existem

Desde que Merkel se tornou premiê, a Alemanha se comprometeu em fechar todas as suas usinas nucleares até 2022, investiu centenas de bilhões de euros em energias renováveis e emergiu como um líder fundamental no esforço multilateral de combate às mudanças climáticas. Merkel, uma era cientista e foi ministra do Meio Ambiente, vem desempenhando um papel muito importante em todos esses esforços, o que lhe rendeu a alcunha de "a premiê do clima".

Mas com a era Merkel chegando ao fim - ela não vai disputar as próximas eleições, em 2021 - uma narrativa diferente está tomando forma. Os críticos apontam que, apesar de todo o custo e os esforços da arrancada da Alemanha em direção às energias renováveis, as emissões de dióxido de carbono do país pouco mudaram em uma década. No ano passado, Berlim foi forçada a admitir que não conseguirá cumprir a meta para 2020, que previa uma redução das emissões de CO2 de 40% em relação ao nível de 1990. O fracasso foi um golpe embaraçante para a posição de líder climático do país e confirmou as suspeitas entre os ativistas ambientais de que a Alemanha não era mais o forte aliado de antes.

Tina Löffelsend, diretora de políticas climáticas da Bund, uma organização ambientalista alemã, afirma que o sentimento entre os ativistas ecológicos hoje é cada vez mais de "desilusão amorosa" em relação a Merkel: "Ela começou prometendo, mas nos últimos dez anos nada aconteceu em termos de redução das emissões de CO2.

Em Bruxelas, ativistas há muito se queixam de que Berlim tenta bloquear ou enfraquecer as legislações ambientais que desagradam a poderosa indústria automobilística do país ou outros lobbies. No âmbito multilateral, a admiração pelo histórico de liderança de Merkel abriu caminho para a exasperação com a indisposição da Alemanha em concordar com uma desativação acelerada do carvão e do linhito. E, dentro de casa, a qualidade do ar em dezenas de cidades alemãs é tão ruim que tribunais começaram a impor a proibição da circulação dos carros movidos a óleo diesel. Com Merkel entrando nos anos finais de seu mandato, seu legado de premiê do clima poucas vezes pareceu tão maculado.

"Merkel é uma das defensoras do Acordo de Paris e do modelo multilateral para o enfrentamento das mudanças climáticas em geral", diz Jennifer Morgan, diretora-executiva do Greenpeace International. "Mas se você olhar para o seu histórico na Alemanha, verá que o país não cumpriu as metas de emissões e que elas continuam aumentando no setor de transporte. E ainda há a questão do carvão."

A pergunta sobre como e quando abandonar o carvão há muito está entre os problemas políticos e econômicos mais controvertidos da Alemanha. Líderes empresariais vêm demonstrando o receio de que uma desativação acelerada venha a aumentar ainda mais os preços da eletricidade e também as probabilidades de "apagões". O linhito responde por mais de um quinto da produção de eletricidade e fornece emprego a mais de 20 mil pessoas.

Usinas como a de Jänschwalde - que fornece muita energia barata e confiável, 24h por dia - têm um papel crucial no sistema energético do qual dependem grupos industriais alemães como Siemens, Daimler e Basf.

"A prosperidade da Alemanha depende em grande parte da competitividade de empresas que consomem muita energia", afirmou Steffen Kampeter, presidente da federação patronal alemã, antes do acordo sobre o carvão no fim de semana. Energia disponível e segurança do fornecimento são de "suma importância" para a economia nacional.

Enquanto isso, ativistas ambientais há muito afirmam que a desativação acelerada das usinas que queimam carvão e linhito é a única maneira de a Alemanha cumprir as suas metas de redução de emissões de CO2 para 2030, que são ainda mais ambiciosas que as metas para 2020. Nos próximos 11 anos, a Alemanha terá de reduzir suas emissões totais de CO2 em 55% em relação a 1990, com metas individuais para cada setor da economia.

O plano apresentado no fim de semana busca equilibrar esses interesses conflitantes, em parte injetando grandes somas de dinheiro nas regiões, empresas e lares: as regiões afetadas pela desativação do carvão deverão receber € 40 bilhões nos próximos 20 anos. Acertar um plano para a desativação do carvão na Alemanha foi difícil - implementar isso deverá ser ainda mais.

Os dilemas da Alemanha são em grande parte resultado - intencional e não intencional - da exaltada "Energiewende", a transição energética, que começou sob o antecessor social-democrata de Merkel. O plano previa a substituição gradual da energia gerada por usinas nucleares e a carvão por fontes renováveis. Parte do plano funcionou com perfeição: encorajados por subsídios generosos, investidores correram para construir parques eólicos em terra e mar. Mais de 1,5 milhão de instalações solares foram erguidas pelo país. O custo da energia renovável caiu expressivamente desde então - a ponto de que as novas instalações eólicas e solares conseguem hoje produzir energia mais barata que as usinas convencionais.

"No geral, essa tem sido uma história de sucesso", diz Patrick Graichen, diretor do Agora Energiewende, um "think-tank" de Berlim. "Não só conseguimos aumentar as energias renováveis para 40% de nosso mix de eletricidade, como também 25% de nossa energia hoje vem dos parques eólicos e solares - duas tecnologias que todo mundo acreditava não serem confiáveis. Essa é uma conquista tremenda. Nenhum outro país conseguiu algo parecido."

O problema é que o "boom" das energias renováveis na Alemanha pouco fez para reduzir as emissões dos gases causadores do efeito estufa. Inicialmente, as autoridades esperavam que os novos parques de energia solar e eólica forçariam as usinas movidas a carvão a sair da rede energética, substituindo as formas de energia mais sujas pelas mais limpas. Em vez disso, o que aconteceu foi que as energias renováveis pressionaram as usinas a gás, que são mais limpas que as usinas de carvão, mas de custos maiores.

"O ponto de partida é que a Alemanha é hoje um dos países da Europa que mais emitem carbono, incapaz até mesmo de cumprir sua meta para 2020", diz Dieter Helm, professor de políticas energéticas da Universidade de Oxford. "Esse é um país que gastou mais do que todos os outros [na transição energética], com um resultado pior em sua maior parte e que não cumpre as suas próprias metas."

O esforço para reduzir a emissão de carbono na geração de energia na Alemanha foi prejudicado pela decisão de Merkel de acelerar o fechamento das usinas nucleares depois do desastre em Fukushima, no Japão, em 2011. Sua decisão foi uma resposta natural ao aumento dos temores públicos na época, mas ela removeu outro componente vital - e em grande parte não emissor de CO2 - do mix nacional de energia.

"Deveríamos ter feito as coisas de outra maneira. Deveríamos ter saído primeiro das fontes de energia que geram muito CO2 e depois da energia nuclear. Se você olhar para os atuais líderes das políticas climáticas - países como Reino Unido, França e Suécia - verá que todos eles têm um importante componente nuclear em seu mix energético", diz Martin Neumann, parlamentar e porta-voz para assuntos energéticos dos liberais do FDP, um partido centrista e pró-negócios.

Outra falha importante, segundo os críticos, foi que a política alemã se concentrou demais no setor energético - dando pouca atenção a automóveis, caminhões e ao setor de transportes em geral, onde as emissões hoje são maiores do que em 1990. Sem reformas drásticas e uma grande mudança para os veículos elétricos, a meta para 2030 de redução das emissões do setor de transporte, de mais de 40%, não será alcançada. A paixão da Alemanha pelos automóveis, e sua dependência do setor que os fabrica, é talvez maior obstáculo no caminho para a concretização das metas para 2030.

"As emissões do setor de transporte estão fora de controle", diz Graichen. "O que é preciso agora é todo um pacote de medidas, incluindo o aumento dos preços da gasolina e do diesel e, em troca, reduzir os preços da eletricidade e subsidiar os veículos elétricos. Mas até agora ninguém na Alemanha ousou tocar nesses assuntos porque todo mundo tem medo do lobby das montadoras."

Do jeito que está, a Energiewende continua sendo uma obra em andamento na melhor das hipóteses - o resultado intermediário de uma luta de décadas entre prioridades políticas que deixaram líderes empresariais e ativistas ecológicos igual e profundamente frustrados. Para os defensores de Merkel, a infelicidade geral é uma prova de que a veterana líder alemã conseguiu estabelecer um equilíbrio.

"Ela continua sendo a premiê do clima. Mas, como premiê, ela também precisa ficar de olho nos empregos, na segurança do fornecimento de energia e no custo da eletricidade - e é isso que ela está fazendo", defende Marie-Luise Dött, parlamentar da União Democrata-Cristão (CDU) de Merkel e porta-voz do partido para as questões climáticas.

Fora da Alemanha, porém, a desativação das usinas a carvão é vista como a última chance de Merkel de restabelecer as maculadas credenciais ecológicas da Alemanha - e a sua própria. "Ela tem um profundo conhecimento da ciência das mudanças climáticas. Sabe o que está em risco e sabe que a Alemanha não está onde deveria estar neste momento da história", afirma Morgan, diretora do Greenpeace. "Como ela ajusta isso à sua função de líder alemã é difícil dizer. Mas imagino que ela deve ter dificuldades para dormir à noite."

Valor Econômico – 31/01/2019

 

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