Fraqueza à vista

Por Arnaldo Luiz Corrêa, Diretor da Archer Consulting

Extraído do Archer Consulting, 07/08

O mercado de açúcar em NY fechou a semana praticamente inalterado para os dois primeiros vencimentos: outubro/2020 encerrando a 12.63 centavos de dólar por libra-peso e o vencimento março/2021 a 13.25 centavos de dólar por libra-peso. O que fez a diferença foi o real que desvalorizou cerca de 4% na semana ante o dólar melhorando os preços em cerca de 65 reais por tonelada para 20/21, 58 reais por tonelada para 21/22 e R$ 44 por tonelada para 22/23.

A queda do real contribuiu para que os contratos futuros com vencimentos mais longos experimentassem uma queda de quase dois dólares por tonelada para a safra 21/22 e cerca de 4-5 dólares por tonelada para a safra 22/23. A curva de preços em NY é claramente descendente e distorcida pelo real. 

Os valores em reais por tonelada obtidos agora pelas usinas nas fixações de preço do açúcar para a safra 2022/2023 numa eventual apreciação da moeda brasileira, seguindo a curva do boletim Focus, só teriam equivalência em reais por tonelada, tudo o mais mantido inalterado, se NY subisse 120 pontos. Não fixar preços agora pode ser um enorme erro para as usinas.

Para que os preços em reais por tonelada obtidos agora fossem considerados ruins, o mercado precisaria sofrer uma tempestade perfeita que empurrasse o preço do açúcar em NY para níveis bem mais altos, isto é, fatores exógenos que fogem do nosso escopo nesse momento e dos quais não temos como nos proteger. Dessa forma, se os valores atuais da 22/23, média de R$ 1,450 FOB Santos trazidos a valor presente são motivo de aflição, vale a compra de uma call (opção de compra) out-of-the-money (opções fora-do-dinheiro) para se proteger de eventual subida expressiva do mercado e também, mais importante, como hedge do fluxo de caixa para eventuais chamadas de margem.

Vale repetir aqui que em 2010, na semana no jantar de gala do açúcar em NY, o mercado batia 13 centavos de dólar por libra-peso e muitos convivas ouviam de consagrados gurus que o mercado caminhava insofismavelmente para os 10 centavos de dólar por libra-peso. Apenas sete semanas após ele estava em 18.40 centavos de dólar por libra-peso. E dobrou de preço (26.33 centavos de dólar por libra-peso) antes de completar 100 pregões depois do jantar.

Ah, mas o quadro é bem diferente agora, dirão muitos leitores. O dólar valia apenas R$ 1,7500 (ocasião em que muitas usinas tomaram vultosos empréstimos em dólares, mas essa é uma outra história). Os valores em reais por tonelada obtidos pelas usinas nem alcançavam R$ 1,000 por tonelada, mas em verdade, esse período representa o nível mais alto (em valores corrigidos pelo IGPM) já visto neste século.

Nos níveis de preço atuais faz sentido que a Índia vislumbre excelente oportunidade para descarregar seu açúcar no mercado internacional. O preço mínimo naquele país descontado o subsídio de exportação equivale hoje a mais ou menos 12.50 – 13.00 centavos de dólar por libra-peso.

A posição dos comitentes divulgada hoje pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission), agência independente do governo dos Estados Unidos, que regula os mercados de futuros e opções das commodities, mostra que os fundos não-indexados estavam comprados 148.308 lotes, um acréscimo de 54.043 lotes em uma semana. Os números tomam como base a posição de terça-feira.

Minha visão dessa posição dos fundos é baixista, pois eles adicionaram 54.000 lotes em suas compras para mover o mercado apenas 77 pontos (os fechamentos das duas terças-feiras anteriores). Isso representa 35.000 toneladas para mexer um pontinho!! A pergunta é a seguinte: quando eles resolverem sair da posição (vendendo) ou rolar a posição, quem vai lhes dar liquidez comprando açúcar num cenário de pandemia, economias minguando, consumo encolhendo. Há de se pensar muito sobre isso. Há 4 semanas dissemos aqui que a posição dos fundos, na nossa opinião, é vulnerável. Agora, achamos que ela é periclitante. Os produtores do Brasil e da América Central agradecem e devem ter aproveitado os recentes preços altos.

A vida não está nada fácil para as empresas de commodities. Em menos de um mês as agências de notícias divulgaram que dois grandes bancos de penetração mundial suspenderam novos financiamentos comerciais envolvendo commodities. A tendência tem sido de que os bancos simplesmente cessem de operar com as commodities encerrando suas mesas de negociação. Esta é uma crise que se arrasta por mais de duas décadas. No mercado de açúcar, por exemplo, somos capazes de enumerar pelo menos 20 tradings que negociavam a commodity, comprando açúcar das usinas no Centro-Sul, na segunda metade dos anos 1990. Hoje, esse número está reduzido pelo menos a 2/3.

O açúcar é um produto que negocia em grandes volumes, necessita de eficiência logística, exige capital intensivo que não raramente financia as duas pontas (comprador e vendedor, usina e refinaria), demanda extrema atenção aos spreads negociados no mercado futuro, requer especial cautela na análise fundamentalista e uma competente equipe de inteligência de mercado para auxiliar na gestão do livro basis e direcional. Isso, sem falar na criatividade e elaboração de derivativos demandados pelos clientes e a gestão do risco das gregas (delta, gamma, volatilidade). Muito suor para margens exíguas.

Do outro lado, observando a tudo isso, estão as mesas de commodities dos bancos que torcem o nariz para o tamanho do risco da operação de seus clientes em seus numerosos e sofisticados tentáculos, e se questionam se vale a pena emprestar dinheiro sob esse cenário contínuo de risco. A seleção Darwiniana se fez presente no mercado de commodities no Brasil e muitas empresas (tradings, exportadores de café, usinas, processadores, entre outros) ficaram pelo caminho. É um processo contínuo.

 

 

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