Dólar subiu, juros caíram, e a indústria passou a andar de lado

Por Alexandre Schwartsman*

O conveniente silêncio da turma nos últimos tempos poderia fazer alguns se esquecerem da seita autodenominada "neodesenvolvimentista", que jurava resolver os problemas do Brasil com o alinhamento de "dois dos preços fundamentais" da economia: a taxa de juros e a taxa de câmbio.

Em particular, no fim de 2017, garantiam que, com uma taxa de câmbio entre R$ 3,80 e R$ 4,00, a indústria se recuperaria e, com ela, o país.

Desde então o dólar subiu de R$ 3,30 para acima de R$ 4,00 e flutuou durante todo o segundo semestre do ano ao redor de R$ 3,80, enquanto a taxa básica de juros foi reduzida ao menor valor da história.

Ajustado à diferença entre a inflação nacional e a americana, o dólar se valorizou em cerca de 15% na segunda metade do ano passado em relação à primeira e 20% na comparação com o mesmo período de 2017.

Apesar disso, a indústria, que vinha em firme trajetória de recuperação do fim de 2016 ao começo de 2018, passou a andar de lado, se não para baixo, e deve ter crescido no ano passado menos do que em 2017.

Não por acaso, acredito, cessaram as juras sobre a "taxa de câmbio de equilíbrio industrial", que nos levaria ao nirvana, talvez na expectativa de que a combinação de silêncio e falta de memória pudesse lavar as reputações dos sectários. A má notícia, para eles, é que há alguns de nós prestando atenção.

Em parte, o erro grotesco decorre da falta de cuidado com as estimativas da suposta "taxa de câmbio de equilíbrio industrial", de cujas bases precárias tratei neste espaço há alguns meses.

Em bom português, trata-se de um número chutado, que, aliás, sobe cada vez que a taxa observada de câmbio se aproxima do suposto ideal.

O erro mais grave, porém, decorre da visão de que o governo conseguiria controlar a taxa real de câmbio, isto é, o valor ajustado à inflação sem alterar condições econômicas concretas, em particular a taxa de poupança da sociedade.

Em países de poupança elevada (portanto, baixo consumo), a produção tipicamente supera por larga margem o volume destinado ao mercado doméstico, o que gera excedentes exportáveis e, como consequência, taxas de câmbio mais desvalorizadas do que em países de consumo elevado, bem como crescimento mais vigoroso.

Em outras palavras, é a poupança mais elevada que leva, ao mesmo tempo, a mais crescimento e câmbio mais fraco.

Quem ignora esse fenômeno cai no conto do dólar mais forte e crescimento mais rápido, como os adeptos da seita "neodesenvolvimentista".

Há ampla literatura sobre as causas do crescimento sustentado apontando para fatores como a qualidade das instituições, o papel da educação na formação do capital humano e a abertura comercial como fator de difusão de novas tecnologias. Nada sugere que crescimento é resultado do ato do príncipe sobre as taxas de câmbio.

Como todo problema complexo, há uma solução simples e errada, em que apenas os picaretas acreditam.

Oded Grajew volta a insistir na idade média ao morrer como critério para determinar a idade de aposentadoria, em vez da expectativa de vida.

Desenhando: num berçário, a idade média ao morrer mede-se em dias, mas a expectativa de vida é superior a 75 anos; a idade média de morte na coorte dos 20 aos 30 anos deve ficar ao redor de 25 anos, mas a expectativa de vida atinge 77 anos.

Os bons creem que suas puras intenções os eximem de rigor na análise. E assim pavimentam os caminhos do inferno...

*Consultor, ex-diretor do Banco Central (2003-2006). É doutor pela Universidade da Califórnia em Berkeley.

Folha de S. Paulo - 23/01/2019

 

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